A exemplo de Martim Luther King, as cerca de duas mil pessoas de mais de 30 países, que participaram da IIª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, em Salvador, de 12 a 14 de julho, e reuniu personalidades como a bióloga, ecologista e Nobel da Paz 2004, Wangari Muta Maathai, o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Domício Proença Filho, a Primeira-Ministra da Jamaica Portia Simpson Miller e o Ministro da Cultura Gilberto Gil também têm um sonho: encontrar soluções para os problemas enfrentados pelos habitantes do continente africano e da diáspora, relativos à paz, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, saúde, educação, nutrição e os direitos das mulheres, através do diálogo e da cooperação entre os países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. A exemplo de outras iniciativas individuais e coletivas, criadas para chamar a atenção do mundo para os problemas que atingem o continente, como os projetos musicais que vem sendo desenvolvidos com músicos africanos, pelo cantor e compositor Peter Gabriel desde 88, através do seu selo Real World (Africa Calling, Eden Project); do Live Aid em 85 e Live 8 em 2005, organizados pelo músico inglês Bob Geldorf que mobilizaram diversos artistas da música internacional; do empenho da atriz Angelina Jolie e do cantor do U2, Bono Vox; a IIª CIAD reuniu pesquisadores de vários países para discutir o tema “Diáspora e o Renascimento Africano” nas esferas: cultural, social, econômica, política e tecnológica. Objetivo que vai além da questão material, pois a África e seus descendentes, “não querem só comida”, mas principalmente, respeito aos seus direitos. Respeito que também foi reivindicado, em coro, por um grupo de jovens universitários brasileiros, presentes ao encontro, ao som de “N’ kosi sikelela” e “Oye Africa”, com o apoio de dois líderes políticos de grande relevância: a Ex - Presidente do Parlamento da África do Sul e Co-Presidente da II CIAD, Frene Ginwala e do embaixador da Jamaica Dudley Thompson. O evento deu origem à Carta de Salvador, documento que ajudará a implementar políticas publicas em vários países, para ajudar a melhorar a qualidade de vida da população afro-descendente. A conferência é uma continuação das idéias lançadas pelo movimento Pan-africanista, que defendia a união de todos os povos da África e da diáspora, em torno de um objetivo comum, a fim de buscar soluções para os problemas que os afligem como o desemprego e o sub-emprego. Foram os discursos de um dos teóricos do Pan-africanismo, Marcus Garvey, que inspiraram os músicos jamaicanos, entre eles Bob Marley, a criar o reggae e o movimento Rastafári nos anos 80. Idéias que também influenciaram Malcom X e foram incorporadas por grupos de rap norte-americanos como Public Enemy e Arrested Development e que no Brasil encontram ecos nos trabalhos de bandas e artistas como Nação Zumbi, Racionais MCs, MV Bill e Happin Hood. O músico Stevie Wonder participou da cerimônia de abertura e falou para a platéia: “Hoje é um dos grandes dias da minha vida. Poderia dizer que o mais importante deles. Fico feliz, pois através da música, me vi com a idéia de que Deus me deu a benção de levar a mensagem da paz, união, amor e respeito às pessoas”. (Ele não pôde permanecer no Brasil até o final da conferência, conforme se esperava, por causa de compromissos profissionais na Califórnia e também porque no dia seguinte sua filha faria aniversário, data sagrada, na qual já virou tradição ele cantar). Wonder ressaltou a importância dos temas escolhidos para o debate, que considerou um importante passo para “se pensar a África de uma forma, que vai além da questão da pobreza”,, e finalizou a sua participação cantando uma música feita especialmente para o encontro, que emocionou a todos. O evento contou ainda com shows dos artistas Toni Garrido, Luís Melodia, Leci Brandão, Sandra de Sá, Luciana Melo, Chico César e o rapper paulista Marcão do grupo DMN, que agitaram a Praça Municipal de Salvador no dia 13-07. A confraternização atingiu a sua apoteose no show de encerramento, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, dia 14-07, com a presença do Ilê Aye, Lazzo Matumbi, as cantoras Isa Pereira de Cabo Verde, Angélique Kidjo e a participação especial do Ministro da Cultura Gilberto Gil que botaram a platéia para dançar (muito), no final dessa grande corrente em prol dos direitos fundamentais do cidadão, no Brasil e no mundo. E como não podia ficar de fora deste momento histórico a MPBzona conversou com alguns músicos presentes, como o Ministro da Cultura Gilberto Gil e a cantora Angélique Kidjo ANGÉLIQUE KIDJO MPBzona - Como se sente participando de um evento como este? Angélique Kidjo - Eu me sinto orgulhosa porque finalmente estamos descobrindo que existem muitos intelectuais vivendo na diáspora. Eu espero que este encontro ajude a melhorar o nosso relacionamento e que possa realmente nos ajudar a conquistar um lugar nesta globalização, pois não podemos mais ficar para trás.
MPBzona - Você é hoje, a voz feminina mais conhecida da música africana, o reconhecimento do seu trabalho na Europa e EUA tem ajudado outras cantoras? Angélique - É difícil e diferente ser africana e ser cantora. Eu sou cantora porque meus pais me apoiaram desde o começo e nunca me pediram para eu mudar de profissão. Mas não é fácil, existem muitas boas cantoras na África que nós temos descobertos como Cesária Évora, por exemplo. Há uma diáspora negra e nós precisamos estar em conexão, para quando as pessoas que estão realizando trabalhos interessantes, alcançarem o sucesso, todo mundo ficar sabendo. Concordo que o número de cantoras africanas ainda é muito pequeno, eu fui chamada pelos africanos francófonos para participar deste evento, porque também sou uma mulher africana de língua francófona, uma entre muitas. Bem, acho que é melhor ter uma voz, do que nenhuma, por isso, espero estar representando.
MPBzona - Como a mulher africana atual encara os desafios no mercado de trabalho? Principalmente as de cultura mulçumana? Angélique Kidjo – Eu acho que a situação da mulher na África evoluiu um pouco. Dependendo aonde vá, porque a África, não esqueça, é um grande continente, em alguns lugares você verá mulheres mulçumanas vivendo com mais liberdade do em outros. Eu fui nomeada embaixadora pela UNICEF e meu papel na instituição é enfatizar e trabalhar pela educação das garotas, porque muitas coisas na África dependem da mulher. Mas a situação das mulheres precisa mudar e temos que trabalhar para isso. Temos que educar os homens desde garotos para que se tornem responsáveis, respeitem as mulheres do jeito que elas merecem, e não as vejam apenas como uma espécie de objeto, mas como um indivíduo na sua totalidade.
MPBzona - Você tem feito boas parcerias com músicos brasileiros não é? Angélique - Sim, eu acabei de fazer uma trilogia. A primeira parte eu gravei nos EUA, a segunda eu fiz no Brasil juntamente Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Gilberto Gil . Eu tenho trabalhando bastante com artistas brasileiros, cantei com o Cidade Negra, com Caetano Veloso em Montreux...a Bahia e o Brasil para mim é uma África, me sinto em casa.
MPBzona - Mande uma mensagem para os leitores. Angélique – Continuem ouvindo boa música, tenham orgulho de serem o que vocês são e continuem representando MINISTRO DA CULTURA GILBERTO GIL
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