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Cançei* de bobagens, de coisas sem pés, que dirás, cabeças. Cançei. Estou muito cançada. Cançei de gente que se compromete a tudo fazer e nada faz. Nada, nada, nada, nada. Cançei de idéias vazias, projetos de fachada, movimentos de nada. Cançei dos espertos demais, que armam laços para pegar patos e desavisados. Cançei dos salvadores da pátria de plantão, obtusos, sem noção. Cançei de ver "pessoas invisíveis", "postes humanos", gente entrando pelo cano. Cançei de esperar por uma "nova era, de gente fina(?), elegante(?), sincera (?) com habilidade pra dizer mais sim do que não, não, não!" Cançei do oportunismo golpista, de gente que está sempre armando, disfarçadamente, para não dar na vista.Cançei dos que não enxergam o mundo á sua volta, dos que tiveram a sorte de descender daqueles, que durante séculos puderam acumular um certo capital. Apesar do cançaço, não falo apenas do capital-capital, financeiro, mas do capital político, social, familiar, o mais importante de todos.Tá cansado? Cançei de ver o sangue de gente inocente, crianças, sendo derramado, de trabalho escravo, semi-escravo, enquanto o "sistema" canta de galo. Cançei daqueles que vivem a ignorar, os que descendem dos que foram privados de acumular, qualquer capital.Cançei dessa gente que ignora a falta de capital, daqueles que descendem dos que aqui chegaram, só com o capital cultural, foram obrigados, sob a mira de trabucos, a utilizar, por séculos, apenas, o capital braçal, e hoje continuam sob a mira de fuzis, metralhadoras, violência desmedida, sem razão, pobreza, falta de emprego, dignidade humana e educação. Cançei dos olhares de escárnio, da violência simbólica, silenciosa, perversa, a clamar “voltem pro seu lugar”! Que é lugar algum, o nada, a terra de ninguém, os guetos, favelas da vida, a escuridão total. Sim, o apagão vital do existir e ser. Estou cançada, muito cançada, das cabeças de chapinhas, descerebradas, vazias, a debochar dos cabelos carapinhas.Tá cansada? Atenção senhores encrenqueiros! Última chamada para atentar para os que ainda vivem sob a luz do candeeiro. Tá cansado? Olha o "Cansei" aí gente! Cançei á Vera.Cançei de ver em des-ação aqueles que só enxergam uma parte da esfera.Cançei do desrespeito, da hipocrisia, de ser tratada como cadela vadia. Que eu não sou cachorra não! Cançei de ser esculachada por não aceitar a farda da servidão. Cançei de ser bom papo, rir de piadas sem graça e ficar fazendo fita no salão, em vão. Cançei de verdades, cançei de mentiras, ou talvez, já nem sei, de meias-verdades, mentiras e dissimulação. Sei não. Só sei que estou cançada. Muito cançada. E o cançaço é tanto, que arrebenta em forma de pranto. Cançei do zero a zero, de não ter o que quero. Por mais fácil-difícil seja esse querer...Ufh! Cançei! Cançei, cançei, cançei,cançei! Cançei até de ficar tão cançada. Estás cansada? Cançei do cançaço que humilha, destrói, reduz a menos que nada. Mas que tudo, cançei do cançaço que abate, causa impotência. O Ministério da Saúde não adverte, mas o cançaço faz mal á atitude. O cançaço não se emenda e ainda tenta nos confundir. Sofista nato, o cançaço se traveste de filósofo e quer nos ensinar o que é bom , belo e verdadeiro. Meninos e meninas, cuidado! Muito cuidado! O cançaço ainda vai te convencer de que ele é o dono da razão. Não? Pelo visto vocês não acreditam mesmo no cançaço, não! Ainda assim, cuidado!Porque o cançaço pode te vencer, pelo cançaço. Que ele tem muitas faces e ainda vive mascarado. Tu tá cansado? Estou tão cançada, que ao invés de criar, bolar, inventar,experimentar, fazer algo diferente, faço apenas a paródia da paródia. Mas, apesar de cançada, não é falha a minha memória, me inspirei no prefácio do Bandeira, Manuel para de Queiroz, Rachel. N' O Quinze. Cançada estou, mas não para ver a Abelha-Ranhia-Maricotinha derramar seu mel no Canecão. Que eu tô cançada, mas tô morta, não. I´m alive. Viva, muito viva. Mas cançada. Muuuuito cançada!E não é de fazer nada, é de muito ter por fazer. Que o meu cançaço é legítimo, tem nas costas o peso de quase quinhentos anos de serviços, não ou mal remunerados. Ai. Ui. Que cançaço... Mas o cançaço, como tudo na vida, passa. Como as chuvas dos verões de antigamente, logo passa. Sempre passa. Vai passar. Passou. Foi. Hein? Ufh! Beijo nos corações de todas e todos. Noêmia Duque, 23 de agosto de 2007. Citações: "Se eu quiser falar com Deus" (Gilberto Gil); "Tempo Modernos" (Lulu Santos); "Amor mais que discreto" (Caetano Veloso) *Note-se que a palavra "cansei" é utilizada com grafia incorreta, intencionalmente, com intuito de reforçar a característica e a temática do texto. "Postes Humanos"
"A primeira vez que me deparei com a cena de uma pessoa apática, na esquina da minha casa, segurando a placa de um candidato, imóvel como uma estátua, senti um estranho desconforto. Lembrei da mini-reforma eleitoral, a Lei n.º 11.300/2006, que proibiu a fixação de placas em postes de iluminação pública. Pensei: “Seguradores de placa?! No lugar de postes públicos, postes humanos? Mais um jeitinho criativo do brasileiro de afastar o alcance da lei!?...” Ao conversar, confirmei a suspeita. A pessoa não estava ali por opção política, em nome de um ideal, mas sim por uma questão de sobrevivência (!), em troca de uns míseros trocados e em condições precárias de trabalho. Um contra-senso. O político que promete na TV dar dignidade ao povo brasileiro é o primeiro a atirá-lo em praça pública sem o menor constrangimento? A precariedade do trabalho destas pessoas, o desinteresse e a descrença que se abateram sobre a política brasileira, a ausência da militância vibrante nas ruas, das manifestações populares espontâneas, da juventude lutando por um mundo melhor motivaram-me a fazer este discurso visual. O cenário foi a orla de Copacabana. Minha busca no ato fotográfico foi tentar capturar numa fração de segundos um instante de desalento, indiferença... Congelar imagens que simbolizassem o momento político do Brasil. Fazendo uma ponte entre a cena urbana e o sentimento nacional. Minha busca foi eternizar no tempo e no espaço a desesperança, a apatia, a incredulidade que invadiram corações e mentes nas eleições 2006. Servindo de suporte à reflexão e memória brasileira. Desejei também desvelar as faces incógnitas por detrás das placas. Descortinar os semblantes destes trabalhadores, na tentativa de desvendar o que podem estar querendo nos dizer... Este ensaio fotográfico representa ainda uma crítica ao marketing eleitoral. O que um rosto sorridente contribui para a escolha de um voto consciente? É o fetiche da publicidade eleitoral e do poderio econômico atuando na formação da decisão do eleitor. Minha intenção primordial é fomentar o debate nacional sobre a premente reforma política, com o intuito de aprovar novas regras que levem a um sistema representativo que permita eleger políticos nascidos do povo, comprometidos só com os ideais de justiça e igualdade social! O espírito da mini-reforma eleitoral foi minimizar a poluição visual e evitar a sujeira da cidade. Minha leitura foi no sentido de que a proibição de fixação de placas nos postes públicos surgiu a fim de atenuar o marketing e diminuir o custo das eleições (a exemplo da proibição de outdoors). Daí, a impressão do jeitinho brasileiro que utilizou os seguradores de placa para continuar veiculando a propaganda em painéis, apesar das vedações do uso de postes públicos e outdoors. Mantenho aqui minha crítica a fim de que a legislação avance inclusive para a proibição dos seguradores de placa. Acabando com o marketing, mitigando o poderio econômico e resgatando o debate político!" Michelle Glória Para ver a exposição on line, acesse o link: http://www.michellegloria.com.br/expos_01.html
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