que Deus é pai - e mãe também Todo ano é a mesmíssima coisa, sai a programação do Tim Festival, algumas pessoas olham, olham, e quando estão acabando os ingressos, correm para comprá-los. Isso quando não são obrigadas a valerem - se do “trabalho” dos cambistas. Eu, que quase nunca tô podendo comprar no mercado paralelo, sempre procuro garantir o(s) meu(s) com antecedência. Mas nem sempre foi assim. Durante esses quase 12 anos de Rio de Janeiro, só vim a “acordar”, quando perdi os shows de Kraftwerk, Robert Plant e Jimmy Page, em uma só edição, em 98. Falta de aviso não foi, pois os entendidos já tinham me colocado a par da “Usina de Força” sonora que estava por vir. Porém, meu pai falecera um mês antes e eu estava profundamente deprimida. Quando finalmente, percebi que ir ao show iria ajudar a superar a dor, já tinha perdido o bonde. Resultado: não assisti a dois dos melhores shows da história do festival. Nesta edição, oito anos depois, o fato voltou a repetir-se. Não consegui comprar ingressos para ver o Daft Punk, e caso o meu cartão de crédito suportasse o peso, em prestações a perder de vista, Patti Smith e Beastie Boys. Mesmo tendo ido três vezes a postos de vendas diferentes, nunca sincronizava com o horário de fechamento dos mesmos, até que da terceira vez, os ingressos tinham esgotado. Não foi por falta de organização, mas de tempo. Estava cheia de afazeres, um deles era organizar o aniversário da minha filha. Isso tirou meu sono e acabou custando minha ida ao show do Daft. Não sei por que tem que ser assim, fiquei incomensuravelmente feliz com os quinze anos da minha filha, e muito desapontada por perder o show do DP. Bem que poderiam ter rolado as duas coisas para equilibrar as energias. Mas aí, na sexta-feira, juntei-me ao bloco dos retardatários, que inconformados foram para a Marina da Glória (?), tentar a sorte. Cheguei no guichê para comprar o tíquete para o Village e a atendente me informou que ainda havia ingresso para o show de Caetano Veloso. A apresentação de Caetano ganhara a boca do povo e um monte de gente estava na expectativa para ver o “Cê” de Caetano, domingo, fechando a programação. Então, comprei ingressos para o “Cê” e o Village, entrei e fui para a frente da tenda, onde o DP se apresentava. O tempo foi passando, ouvia-se os gritos do público lá dentro, eu olhava em volta na esperança de um milagre e nada. Um drama, quase tragédia. Findo o show, fui ao banheiro. Na fila, três “Pati-girls”, uma delas, alegre além da conta, e sem noção (de perigo), resolve me zoar, era Negra Li pra lá, Negra Li pra cá. Apesar de lisonjeiro, foi mal, pela gratuidade da “situação”. Ainda bem que não sou do tipo que chuta cadela morta, descarrega decepções nos outros, ateia fogo em velhinha, comete atos de violência e covardia. Como dizia Bob Marley, gente com fome é gente zangada. Você tem fome de quê? Mas, sorte delas, sou do bem total e 'ignorei solenemente' a história. Putz. Triste com o desfecho da situação - meu anjo da guarda tirou férias sem avisar, ou tava dando um rolé, não é possível! Questionei até a postura de Deus em relação à minha pessoa. Diante do fato, pensei em castigo. Rebobinei para ver se eu havia feito algo de grave, e não encontrei nada que justificasse um castigo daquela dimensão. Então, como os evangélicos, comecei a achar que Deus tinha “um grande plano para a minha vida”, que aquilo era apenas uma provação, para eu achar que tinha sido abandonada, e aí, ELE poder brilhar, quer dizer, se manifestar com mais impacto do que o show do Daft, ora, ora...pois, pois...Só podia ser isso, tinha que ser isso, senão...o vazio aumentaria. Mais masoquista impossível. Fui afogar minhas mágoas na rave do Village, a salvação da noite, para quem estava na mesma situation. Eu, dois amigos, mais uma galera de meninas ficamos “na pista”, curtindo o som do Dj/ Maurício Valadares. Deu para aliviar um pouco a frustração, voltei pra casa mais tranqüila, mas a sensação de vazio continuava lá. No dia seguinte, mergulhei nos preparativos da festa de ma petite, e nem lembrei mais do assunto. Domingo, depois do aniversário dela, fui feliz da vida e desta vez mais relax, pois estava com o ingresso, ver o "Cê” de Caetano, que este ano foi a minha Çalvação! Vi, ouvi e...gostei. Mas antes de entrar no mérito da questão, falar de conceitos, sonoridades e outras coisas do gênero, preciso informar que o show de Caetano, não operou só o milagre de çalvar meu festival, não. Aconteceu um fato curiosíssimo, e eu preciso do testemunho de vocês, para ter certeza, de que não foi uma “visão”, Vixe Maria! Há um tempo atrás, eu li um artigo sobre aquele músico Devandra...Devandra Banhart, em que ele afirmava que Caetano era...Deus!!!Como diriaNana Caymmi...Uh! Bem, no Brasil, Caetano sempre foi uma espécie de...Semideus. Mas, Devandra surgiu para contestar esse posto e colocá-lo no seu lugar de merecimento no Olimpo. Até aí (quase) tudo normal. Digo quase, porque para uma baiana criada por pais Testemunhas de Jeová, é um verdadeiro sofrimento tomar intimidade com “Deus”. Mas, agora que “ELE” foi trazido para perto da gente, pelas mãos deste músico simpático e de astral altíssimo, não serei eu que deixarei a necessidade orgânica de crer, podes crer, de lado. Pelo contrário, isso me deu mais tesão para acreditar. Na vida, na música, nas pessoas...mas tem uma coisa nessa equação, que eu não consegui resolver: pelo que me consta, nada de certezas, Caetano é ateu. Então, neste caso, Caetano não acredita nELE, mesmo. Uh! Instalou-se, então, um conflito religioso-filosófico na Música Popular...Mundial! Outra coisa, dizem que Devandra estava lá, no meio do galerão, assistindo ao show de “seu Deus”. Uh! Acredito que cheguei a vê-lo, de relance, no meio do muvucão, bem como ao “Deus-Caetano” no palco. Contudo, parece que estávamos todos aloprados, pois Caetano estava lá e era “God”, mas, if he doesn´t believe in God... então, ele não estava lá. Hein? Estou sem palavras, posto que debandaram-se todas, estou tentando trazê-las de volta, tempo não posso precisar, caso eu consiga e vocês ainda estejam ligados nessa parada do ‘Cê(Dê)’ de Caetano, talvez, daqui a mais um pouco, eu volte a falar no assunto. Se “Deus” quiser, e deixar, lógico. Beijo nos corações de todas e todos. 05/11/ 2006 Noemia Duque. |
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